FRAGOSO

...não tive mestre, nem escola.
Aprendi com a vida.

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HOMENAGENS

 


"13 Artistas do Povo"
(Exposição JN-Porto, 1985)

   

Diploma da UMATI
(Exposição "Arte na Rua"
Viana do Castelo,1990)

 


Homenagem da Câmara de Ponte de Lima
14 de Março de 2007

         


Homenagem da Autaquia de Fragoso
11 de Julho de2011

     

OBRA

     

Tribuna
(Douramento - Igreja de Fragoso)
 
         


Adoração
(Pintura - Igreja de Fragoso)

                                                               


Cristo Rei
(Escultura-Igreja Sandiães)

   

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AUGUSTO DUARTE
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                                       Pintar era o meu sonho
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Identificação  

   

João Augusto Duarte, filho de Francisco José António e de Rosa Vieites Duarte, nasceu em Fragoso a 12 de Março de 1915, no lugar da Breia. Mais tarde foi viver para uma casa herdada dos avós, no lugar da Barrosa, onde morou até aos 34 anos de idade. Em 1949, casou com Aida Gonçalves Miranda, tendo passado a residir em Sandiães, no concelho de Ponte de Lima. Desta união nasceram 8 filhos.

Dotes de observador atento e elevada sensibilidade permitiram-lhe trilhar um caminho diferente daquele que havia iniciado na arte de trolha e enveredar pela pintura, o douramento e até o retrato e a escultura.

 O seu nome aparece ligado à igreja de Fragoso, como autor das imagens pintadas no tecto e do douramento da tribuna. Estes trabalhos despertam curiosidade sobre a pessoa de Fragoso que os executou.

 E por isso, a 4 de Dezembro de 1999, fomos ao seu encontro. Na sua residência, em Sandiães, o próprio artista relatou parte da sua vida.


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            Reconstrução da Igreja de Fragoso

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A recordação mais marcante da minha vida está relacionada com a reconstrução da actual igreja de Fragoso. Trabalhei lá na arte do cimento e tive oportunidade de contactar com artistas de outro ramo e de observar o seu trabalho. De Braga, veio um senhor pintar umas telas para o tecto da igreja.

Gostei tanto do trabalho que ele fez que comecei a ensaiar em casa. Um dia aventurei-me a pintar alminhas nos caminhos de Fragoso. As primeiras foram as do P.e Joaquim Félix, no lugar da Ponte, pintura que ainda existe. Depois foram as do Lugar do Reiro e muitas outras.

Foi em Fragoso, também, que eu vi  dourar o púlpito ao Senhor Peixoto, de Barroselas, que era o dourador daquela zona. Eu não sabia dourar. Nem nunca tinha visto ouro. Depois de ter visto o trabalho do Senhor Peixoto, mandei vir ouro à minha custa, pedi algumas informações à casa fornecedora e comecei a fazer experiências procedendo ao douramento de algumas cruzes lá em casa.

Passado algum tempo, um ano e meio mais ao menos, eu mesmo viria a repintar as pinturas do tecto da igreja de Fragoso, a pedido do Abade Beirão. Com efeito, foram utilizadas tintas de qualidade duvidosa e em pouco tempo ficaram completamente escuras.
Apenas se notavam os contornos.

Muitos anos depois, já a convite do actual pároco, Padre Sá, voltei de novo a Fragoso para o douramento da tribuna e de todos os outros altares.

 


            Do cimento à arte sacra

 

Eu comecei a trabalhar com o meu pai. Como artistas de cimento e de pintura éramos dos mais conhecidos. Foi o meu pai quem construiu a primeira casa nova do Sr. Rosas, em Balugães, no lugar de Navió. Durante a construção da obra, passou por lá o pároco da freguesia de Poiares - Ponte de Lima, o P.e Saleiro, que era padrinho do Sr António Rosas. Por aquela altura - Janeiro de 1939 - tinha havido um ciclone que deitou muita coisa abaixo: casas, pinhais, cruzes de igrejas, etc. Também a cruz de Poiares caiu em cima do tecto, tendo-o derrubado. Debaixo tinha uma imagem de Santiago, padroeiro da paróquia, que ficou muito danificada.
O padre Saleiro dirigiu-se então ao meu pai e perguntou-lhe se ele seria capaz de compor uma moldura em gesso, à volta do padroeiro, que tinha ficado muito deteriorada. O meu pai foi a Poiares ver o que havia a fazer e comprometeu-se a realizar o trabalho. As molduras em gesso eram muito frequentes naquela altura. E porque também trabalhávamos o gesso, o meu pai, sem dificuldade a recompôs utilizando ainda alguns pedaços da moldura antiga.

- Agora precisava de quem me pintasse o santo, o padroeiro, disse o padre.

- O meu rapaz faz-lhe isso, respondeu o meu pai.

- Diga-lhe então que venha cá para eu tratar com ele.

 Ainda só tinha pintado as alminhas dos caminhos, a  tela do Cristo Rei, e mais umas coisitas. Foi uma pequena aventura meter-me a pintar o santo. Comprei as tintas e meti-me à obra. O pároco ficou contente com o trabalho e disse-me:

- Agora, já não vais sair daqui sem pintares a Capela-mor. Só se o teu pai não deixar.

Pintei então os 4 evangelistas, cuja tela, colada em madeira que se tinha distorcido, estava toda rasgada, e mais um motivo no centro, de que não me lembro. Ficou bonito.
A consequência foi que os padres de outras paróquias, que iam prestar serviço à igreja de Poiares, começaram a contactar-me. Um deles, por exemplo, foi o P.e Cerquido, natural de Palme, que estava a paroquiar  em Panque.

A partir daí quase só trabalhei em igrejas, nos concelhos de Barcelos, Viana do Castelo, Caminha, Ponte da Barca, Vila Nova de Cerveira e outros, mesmo em Trás-os-Montes. Devo isso à casa do Rosas e ao ciclone que deitou abaixo a cruz de Poiares.
Dourar e pintar passou a ser, a partir de então, o meu trabalho.

 


            Primeira tela


O meu primeiro trabalho, por encomenda, foi a pintura de Cristo Rei, em tela, para a Igreja de Cossourado – Barcelos. Foi iniciado em casa dos meus pais, na Breia. Mas como era muito grande e em casa não tinha espaço, levei-a para o coro da igreja de Fragoso, para lhe dar os últimos retoques. O coro era alto e tinha muita luz. Foi lá  que a acabei.
Depois de pronta, peguei na minha bicicleta e, tela às costas, fui colocá-la na Igreja de Cossourado. Senti um grande contentamento.



            Nunca tive mestre nem escola


Das pinturas as que mais me marcaram foram o Cristo Rei de Cossourado e o Santiago de Couto, concelho de Barcelos.

E devo dizer-lhe que sinto muito as coisas, porque tudo o que fiz foi resultado de esforço e empenho meu. Nunca tive mestre nem escola. Sou totalmente autodidacta. Observava e depois por tentativas procurava fazer igual. Mesmo pinturas de autores célebres eu tentei reproduzir. Cheguei até a participar em exposições, em conjunto com outros artistas.
Uma delas realizou-se na Galeria do Jornal de Notícias, no Porto,   sob o tema  «13 ARTISTAS DO POVO»,  à volta de 1985. Outra, denominada «ARTE NA RUA», foi em Viana do Castelo, em 1990, nas arcadas dos antigos Paços do Concelho, na Praça da República. Nesta exposição, recebi um Certificado de Mérito Cultural pelo contributo em prol do Património Artístico e Cultural, conferido pela UMATI.



            Trabalhos mais recentes

 

Mais recentemente fiz esculturas, mas esculturas em cimento. Fiz há dois anos uma para a igreja de Sandiães: S. João a baptizar Cristo. Esta escultura encima a pia baptismal. As imagens em alto-relevo que estão na fachada da igreja, entre as duas torres, também foram feitas por mim: Cristo Rei ladeado por Nossa Senhora e Santa Ana e por S. José e S. Joaquim.
São estas esculturas que nesta fase da minha vida mais me emocionam. Não era escultor e daí o grande prazer que tive por conseguir fazê-las. Foi tudo feito em cimento. A arte do cimento conhecia-a eu bem. Foi nela que eu comecei a trabalhar com o meu pai.

Não fiz mais nada em cimento embora tenha sido procurado para isso, mas para já não tenho tempo.
Já me comprometi com algumas telas e só depois de as pintar poderei decidir.
Junto ao Rio Neiva, aqui perto, há um restaurante novo, muito grande, e comprometi-me a fazer, para lá,  uma tela representando o  Rio Neiva com moinhos, tendo por motivo uma paisagem que se encontra logo abaixo.

   

   

 Uma realização pessoal

 

De todo este trabalho da minha vida resta-me uma sensação agradável. Sinto-me realizado. É a mesma sensação que sentia quando fazia as obras e ficavam bem feitas, e me elogiavam.
Mas reconheço que a minha evolução foi sempre muito lenta. Na verdade eu nunca saí daqui, das aldeias. No entanto, esforcei-me sempre por saber mais e trabalhar melhor.

 

   

Agradecimento ao dourador / pintor

 

Esta é a descrição da vida de um homem de Fragoso, cuja entrevista, aqui parcialmente publicada foi gravada na sua residência em Sandiães a 4 de Dezembro de 1999. Quão agradável foi ouvi-lo, sentir o prazer com que vive a arte, e apreciar o seu compromisso com vários trabalhos a realizar apesar da sua idade de 84 anos. Diz o povo que a idade é a que nós temos na mente. E, sendo assim, o Sr. Augusto é ainda um jovem. Que tenha muito sucesso na vida que tem pela frente.

 Aproveitámos a oportunidade para o felicitar, bem como à sua esposa, e apresentar-lhes os parabéns pelo jubileu dos 50 anos de matrimónio que haviam celebrado no dia 26 de Novembro desse ano.

            Bem-haja.


Nota:
 Houve quem plagiasse e publicasse a referida entrevista, sob próprio nome, sem qualquer informação ou referência ao autor do trabalho 
       Por j.j.saleiro beirão

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